Botamos nove meninhos pola borda, tiramo-los para fora do caiuco e nem os choramos. Eles foram morrendo por esses incertos caminhos de água... Nove mães, nove famílias, nove vidas que engole o mar da abundância na que nós vivemos... o mar que aprendeu a ser moderno fojo de crocodilos que protege o nosso, também moderno, castelo.
É estranha esta nova Idade Média na que, julgo eu, não temos sequer que ver nem que sentir os berros dos que matamos. É claro que não foi nós individualmente que levamos a esses nove miúdos a subir ao caiuco, mas é por nós que eles subiram; sim por nós e por esse mundo no que nós desenhamos a comida toda do nosso lado...
Desenhamo-lo num plano invisível que aligeira a nossa consciência... a culpa é da sociedade, ou dos ricos, ou dos políticos, ou mesmo só dos Iankis... com estes modernos métodos de confissão ateia não se descarga de culpa quem não quer; e para o religioso de fés em deuses salvadores e castigadores, a cousa é ainda bem mais fácil.
Nove meninhos que procuravam um lugar onde poder ser criança... nove meninhos que ao parecer já sentiam que sobravam; sobravam no lugar que os expulsou e sobravam no lugar que os não ia acolher. E eu pergunto-me, sabendo que não poderei achar resposta, mas pergunto-me: se eu fosse no caiuco, que queria ser melhor... mãe ou criança?
O que distingue uma sociedade bárbara de outra menos bárbara não é o muito que os seres humanos podem chegar a sofrer nela; não, não é isso, o que converte uma sociedade em bárbara é a alta tolerância para o sofrimento dos demais, é o muito bem que podemos aguentar que outros seres humanos padeçam... é que nos morram nove meninhos, que os botemos pola borda (é claro que não o fizemos com as nossas próprias mãos) e que nem os choremos.
Non gostei Concha. E non é que o que dis non sexa a cruel verdade de todos os días, e certo que morren centos de persoas: no mar, nas guerras, de fame,... Mais o enfoque "cristián" da "culpa", aínda que fales de confissão ateia, semállame simple de máis, ou quizais xa superado.
Insisto aos votantes: Expliquem o sentido do seu voto, se o seu voto tiver algum sentido.
Aos "engraçados" bertus e mesmo xacataca, tenham a bem explicar a sua graça. Se tiverem alguma explicação.
Caro lavesedo, temo-me que não tens muito claro que é "cristián" e que é não "cristián"... Ou sim? Serás capaz de te explicar um pouco?
Concordo co artigo ao 100%, pero teño unha dúbida. Por que utilizar a verba mãe, na contra de utilizar unha 100% galega coma nai ou mai? A verdade e que non o entendo, e que conste que pregunto sen ánimo de ofender.
non sei se darei, AGIL, vouno tentar...
quizais debín dicir relixioso onde puxen cristián, mais este parágrafo: "mas é por nós que eles subiram; sim por nós e por esse mundo no que nós desenhamos a comida toda do nosso lado..." ou estoutro "que os botemos pola borda (é claro que não o fizemos com as nossas próprias mãos)", trouxéronme lembranzas de púlpito, do "arrepentíos pecadores!" que andaba seguido na boca do curiña da miña parroquia.
Para min unha muller, un home, son responsables dos seus actos e só poden ter sentimentos de culpa de entenderen que obraron mal, o mismo que só seran culpables cando violen unha norma...as culpas colectivas que precisamente agachan as responsabilidades directas dos verdadeiros culpables seméllanme nubes de fume que procuran atordoar a poboación. Quero dicir que o artigo de Concha buscaba, na miña opinión, furar nas consciencias dos lectores do mesmo xeito que o discurso relixioso clama contra os seus seguidores, "pola vosa culpa pasa isto ou o outro", e non gostei deste enfoque, que eu apreciei o que loxicamente non significa que fose o que a autora lle quixo dar.
E #6 Anti_Lusista, se o teu comentario non é o dun troll, imítao moito. A señora Rousia escreve mãe, porque é o xeito de grafar nai ou mai na normativa que ela segue, creo que é claro dabondo.
Leio o artigo da Concha e fico, no fim da primeira leitura, com vontade de o reler. Faço uma segunda leitura enquanto escuto "O Mio Babbino Caro" de Puccini na voz de Maria Callas. O texto adquire uma maior profundidade, e dilata-se nas palavras da Concha o eco da vida, abre-se a própria consciência.
Agradeço as palavras da Concha. Fazem-me refletir sobre assuntos já refletidos quotidianamente, ao menos na minha vida, mas sempre com a sua excelente conversa, ainda que seja através da letra. Nada do que lhe acontece às outras e aos outros que eu sou me é alheio. É verdade: nós matamos. Não somos culpáveis, mas é preciso acordarmos a consciência para pararmos a morte. E matamo-nos a nós mesmos, a nós mesmas, quando deixamos morrer e deixamos matar. Por isso é preciso darmos-lhe um sentido à palavra responsabilidade, para que seja mais do que uma palavra, para verificarmos que ela é mais do que uma palavra no dia a dia, ainda que a não vivamos desse jeito.
Não entendo o significado -se o tem verdadeiramente- da palavra "culpa". Mas entendo que tenha algum sentido ou significado para algumas pessoas, desconhecendo o para quê de tal significado. Sempre me causou muita confusão o "significado" da "culpa", e ignoro o seu valor. Mas a Concha diz:
"Desenhamo-lo num plano invisível que aligeira a nossa consciência... a culpa é da sociedade, ou dos ricos, ou dos políticos, ou mesmo só dos Iankis... com estes modernos métodos de confissão ateia não se descarga de culpa quem não quer; e para o religioso de fés em deuses salvadores e castigadores, a cousa é ainda bem mais fácil."
O plano invisível é profundamente inconsciente. Só o que não vemos é completamente inconsciente. Vermos ou não vermos faz com que tenhamos em conta ou não. Como quando escondemos algum pequeno objeto de uma criança nas suas fases iniciais. A criança não vê o objeto e acha que desapareceu, mas o objeto continua existindo. Mas sempre chega um momento na vida da criança em que começa a saber que ainda que ela não veja algo, esse "algo" que não vê continua existindo. Nas nossas sociedades -em geral-, ainda estamos na fase da criança que quando "algo" desaparece da sua vista acha que desapareceu mesmo. Precisamos de ver a consciência, a responsabilidade, de vermos que nós somos a Humanidade, e precisamos de ver que aquilo que lhe acontece à Humanidade acontece a nós mesm@s.
Além disso, qualquer reflexão a respeito da nossa própria responsabilidade na vida (não só na vida, como é o caso, mas na forma de vida, etc.) doutros seres humanos é deslocada precisamente porque as pessoas dão forma a algo chamado "culpa", que é "um sentimento" e uma sensação que danam psicologicamente. A referida "culpa" aplicada ao próprio "eu" provoca que nos sintamos mal connosco inutilmente. Esse mal-estar origina um deslocamento da sensação de culpa para outras pessoas (pessoas concretas) ou coletivos ("sociedade", "a classe política",...) aos que se pode "culpar". Obviamente, a sensação pessoal de culpa passa a ser uma ideia quando referida às outras pessoas, porquanto não é possível sentir culpa por outros seres, mas sim criar a ideia em um mesmo, em uma mesma, de que "a culpa é deles, delas", seja quem seja, como indica a Concha exemplificando "a culpa é da sociedade, ou dos ricos, ou dos políticos, ou mesmo só dos Iankis...", como 'crença ateia' à que se refere, pois a Concha indica que "com estes modernos métodos de confissão ateia não se descarga de culpa quem não quer". É, portanto, profundamente pouco reflexiva este deslocamento da culpa (como não podia ser doutro jeito) em que não existe a responsabilidade. Primeiro criou-se a culpa. Logo não se pode sentir culpa e desloca-se a outras pessoas, coletivos, ou 'palavras', etc. Logo a culpa já é "dos outros" e/ou "das outras". E nesse caminho perdemos o significado do eu (da minha responsabilidade e da minha existência), do nós (da nossa unidade humana, de que o que lhe acontece a uma criança, a uma mulher, a um homem, num caiuco ou fora dele, também me acontece a mim, que o outro, a outra, sou eu), e da responsabilidade mesma, que fica para ser usada como uma palavra oca. A Concha critica a "religião" da criação da culpa no outro, na outra. Nas palavras da Concha não existe nada parecido com a falsa preocupação catolicista do padre da paróquia de lavesedo #7, ainda que ele sugira que lhe lembra um "arrepentíos pecadores!" que diz que costumava estar na boca desse padre, embora a Concha critique "religioso de fés em deuses salvadores e castigadores", que considera ainda menos motivos da origem de tais mortes.
Sinceramente, duvido que a Concha use a palavra "culpa" com o sentido "do mesmo xeito que o discurso relixioso clama contra os seus seguidores, "pola vosa culpa pasa isto ou o outro"", em palavras de lavesedo #7. É preciso lermos reflexivamente e com atenção as palavras da Concha. Ela não refere uma culpa que deva nascer em nós. Ela indica mais bem o despertar da consciência respeito do sofrimento dos outros seres humanos, nomeadamente a respeito das crianças. E critica o facto de que nem mereçam o nosso choro, metaforicamente falando, é claro.
É, entre outras cousas, uma crítica à hipocrisia social de todos e todas nós, uma reflexão para a visão da realidade considerando a importância da vida humana, nomeadamente a das crianças. Se nos preocupamos polas nossas crianças e não por estas... não é a preocupação mais por algo "nosso" que pola vida das crianças? Não é, por acaso, mais uma forma de egoísmo, de construção do eu e de luta polo mantimento desse "eu" construído?
Parabéns à autora e obrigado por me permitir contribuir em troca do que ela escreveu.
Saúde e reflexão.
Acho que Lavesedo, com a sua crítica ao artigo, precisamente, e paradoxalmente, exemplifica o que Concha quer dizer: "isto não é comigo...não me botem sermões de curinha". Ou seja, "eu sou de esquerda, vou a manifas anti-globalização de quando em vez, reciclo as minhas latas de cerveja vazias (não consumo cocacola que é um produto imperialista), apoio a luta do povo saharaui e mais do palestiniano...então, não tenho nada a ver com a desgraça dessa pobre gente, não me venham com lérias. O problema, acho eu, não é de "culpa" senão de "causa". Nos fazemos parte do sistema de causas dessas mortes. Mesmo que não tenhamos culpa.
Caro Anti-Lusista:
Parece-me muito bem que sejas "anti-lusista2, mas, por que não ser também "anti-castelhanista"? (digo isto porque escreves o galego "á castelhana". E já de passo, por que utilizar palavras como "verba" ou "dúbida", em vez de utilizar palavras tão "galegas" como "palabra" ou "duda" (não digas que não são galegas: o 99% da gente utiliza-as; e "concordo" é um "lusismo" como uma catedral...
Acho que o Xavier #8 (como habitualmente) dá perfeitamente no alvo: "É, entre outras cousas, uma crítica à hipocrisia social de todos e todas nós, uma reflexão para a visão da realidade considerando a importância da vida humana, nomeadamente a das crianças. Se nos preocupamos polas nossas crianças e não por estas... não é a preocupação mais por algo "nosso" que pola vida das crianças? Não é, por acaso, mais uma forma de egoísmo, de construção do eu e de luta polo mantimento desse "eu" construído?"
Do que parece tratar-se em todo momento não é de fazer sermões de curinhas, como também compreende bem o caro Suso, nem mesmo de fazer demagogia (tão fora do que é aceitável nestes últimos tempos, mas isso é outro tema) ao situarmos-nos na posição de mãe ou criança. Sinceramente, Concha, também eu não sei o que preferiria. E, também não o sei entre ser criança, mãe ou responsável pela desgraça (embora um responsável coletivo). É importante, acho, não confundir os termos. Nada há de lógica religiosa cristã nas palavras da Concha. Eu, quando menos, não acho nada disso.
Doutra parte, a meu ver, Lavesedo #7 está a pôr acima da mesa uma questão paralela: a da eliminação do elemento coletivo, que ele identifica claramente com a lógica religiosa dos, por acaso, suicídios coletivos. A meu ver, repito, o discurso de Lavesedo está na linha do individual, do eu cá e tu lá e o que está lá não está cá e, assim, não me pertence nem sou responsável por ele. A responsabilidade (não vou falar de culpa) não é só pelos factos de um próprio, mas pelos factos que um próprio consente. É claro que não se trata do mesmo tipo de responsabilidade, mas também deve ficar claro que há responsabilidades não puníveis que, por isso, não vão deixar de ser responsabilidades. É preciso, como diz o Xavier, recuperarmos esse conceito, expandindo-o e tirando-o da simplicidade e ineficácia em que tem sido remetido. E há que recuperar também o sentido do comunitário, ultrapassando por fim essa descarga que é configurarmos a nossa própria imagem como sendo apenas indivíduo. Por outras palavras, as do caro Xavier tantas vezes: o que acontece ao outro, acontece-me a mim.
AGIL, non me vexo obrigado pero vouche contestar. Éche unha vella canción dos Resentidos: Galicia canibal: "un parado occidental sostén un filete / un negro deitado arrastra o bandullo./ Etiopía ten falme."
O artigo non deixa de ser unha forma de confesión (atea ou crente) postmoderna que cae no tópico da autocompracencia moral: "mal de moitos, consolo de tontos".
É unha maneira de diluír a responsabilidade dicindo: todos somos culpables. Ademais dentro de Occidente hai moito sufrimento.
A canción dos resentidos é unha sátira a iso que ben sinala lavesedo.
Esta sociedade bárbara tolera o sufrimento dentro dela.
Sempre, desde neno pergunteiro, fascinou-me a Idade Média e não lembro quando comecei a dar voltas sobre a queda das grandes civilizações, ou as regressões e a volta a barbárie. Vai acontecendo, os poetas e filósofos, os cientistas vão dizendo, mas o pessoal (impulsado pelas vozes de mando e os média) como quem ouve chover. Riscamos há muito os limites.
É a absurda ruleta russa do nosso tempo. Os nenos das lanchinhas, dos mercados, das favelas ou das perifeias das urbes malditas norteamericanas, bombinhas de ácio, fomes, intolerância, perseguição...
Tanta teoria, tanta diplomacia, tanto estatalismo e nacionalismo, tanta economia de fundo.
Especulação, danos colaterais, barbárie. Quanta crueldade no espelho.
Em (#7) lavesedo, pessoa (ao que se vê) dialogante, responde-me (e vou tentar, também eu, co-responder):
0.- non sei se darei, AGIL, vouno tentar...
1.- «quizais debín dicir relixioso onde puxen cristián, mais este parágrafo: "mas é por nós que eles subiram; sim por nós e por esse mundo no que nós desenhamos a comida toda do nosso lado..." ou estoutro "que os botemos pola borda (é claro que não o fizemos com as nossas próprias mãos)", trouxéronme lembranzas de púlpito, do "arrepentíos pecadores!" que andaba seguido na boca do curiña da miña parroquia.»
COM.- Não sei se tanto teria "religioso" quanto "cristão". Mas, vou apurar a diferença, que nos pode dar alguma luz:
a) "religioso" remete às relações da criatura com o seu Criador ou, se preferes, da Divindade com a não divindade. Não vejo no artigo de Concha nenhuma referência (nem explícita nem implícita) à Divindade ou às relações entre esta e a não divindade, ou criatura.
b) "cristão" remete, como é óbvio, à "doutrina" (mais do que religiosa) que Jesus, o Cristo, predicou num determinado lugar e tempo, mas que se acha resumida nos Evangelhos, sobretudo. Podem receber-se as ensinanças evangélicas quer diretamente (lê-se, medita-se o lido no Evangelho), quer da boca dos seus intérpretes mais ou menos autorizados... por alguma igreja. Por estas partes da Europa, a igreja dominante (sic) é a católica-romana. Não me estranha que as suas prédicas também dominem até ao ponto de quase monopolizar as que poderíamos denominar relações "transcendentes" entre os humanos, quer dizer, aquelas relações que ultrapassam o imediato, a proximidade física.
Neste sentido, as reflexões de Concha sim poderiam "soar" a quase evangélicas, no sentido de apresentar relações entre humanos que não têm entre si proximidade física, mas que compartilham a mesma e idêntica condiçãos de humanos.
Por isso a pergunta primeira que das reflexões da Concha se depreende pode ser: «Por que eu, humano, me acho em melhores circunstâncias de toda a ordem do que essoutros, humanos também?»
A resposta, sem dúvida, não pode apelar apenas ao indivíduo perguntante, mas a sociedade inteira: «Eu faço parte desta sociedade que me permite gozar de melhores circunstâncias do que a sociedade de que procedem os emigrantes, lhes permite a eles...»
E continuaria (eu) perguntando: «Por que é que acontece assim?»
... E cada um responderá o que lhe petar, mas na sua resposta evidenciará também a vivência da sua condição humana, reflexiva ou superficial ou simplesmente caralhenta...
...
2.- «Para min unha muller, un home, son responsables dos seus actos e só poden ter sentimentos de culpa de entenderen que obraron mal, o mismo que só seran culpables cando violen unha norma...as culpas colectivas que precisamente agachan as responsabilidades directas dos verdadeiros culpables seméllanme nubes de fume que procuran atordoar a poboación. Quero dicir que o artigo de Concha buscaba, na miña opinión, furar nas consciencias dos lectores do mesmo xeito que o discurso relixioso clama contra os seus seguidores, "pola vosa culpa pasa isto ou o outro", e non gostei deste enfoque, que eu apreciei o que loxicamente non significa que fose o que a autora lle quixo dar.»
COM.- Sem dúvida tens razão nisto que dizes. Mas também não tens toda a razão: Porque, queiramo-lo ou não, somos também responsáveis do que outros, autoridades ou responsáveis da sociedade a que pertencemos, resolvem ou não resolvem.
....
NOTA: «E #6 Anti_Lusista, se o teu comentario non é o dun troll, imítao moito. A señora Rousia escreve mãe, porque é o xeito de grafar nai ou mai na normativa que ela segue, creo que é claro dabondo.»
COM.- Anti_lusista tem (parece) uma única teima... O "galego" é galego se é escrito como quase dialeto do castelhano, que (este sim) é língua e língua séria. Se o galego é escrito como LÍNGUA SÉRIA (portanto, não como castelhano), ah, quem sabe, talvez não seja galego, ... não, não é galego.
Mas as razões por que Concha (ou eu ou outros) escreve assim é porque entendemos que o galego É LÍNGUA EXTENSA E ÚTIL, de mais de 200 milhões de utentes. Portanto, devemos escrevê-la de modo que se veja que é EXTENSA E ÚTIL A TANTA GENTE, e não como é pronunciada neste ou naquele lugar. Porque se, como faz o ILGa-RAGa, se escreve só "nai", os que pronunciam "mai" (ou mãe... soam mais ou menos igual) ficam excluídos... Mas acontece que na Lusofonia, no território extenso dessa língua extensa e útil, a maioria pronuncia "mãe" / "mai" e não "nai"; não parece descaminhado adoptar a escrita mais extensa, embora a pronúncia seja a menos extensa ("nai").
O ILGa-RAGa e o anti_lusista, se fossem coerentes com o seu modo de ver o "galego", não deveriam criticar nenhuma forma de o escrever, porque quem escreve (poderia assinalar) o escreve segundo o fala ou segundo o quer falar. E não diz o ILGa-RAGa que a fala é o mais importante para dirimir a escrita do "galego"? Portanto, deveriam concluir que para o "galego" ser fiel à fala nenhuma norma ortográfica vale, porque todas valem...
Em (#12) bertus responde-me: «AGIL, non me vexo obrigado pero vouche contestar. Éche unha vella canción dos Resentidos: Galicia canibal: "un parado occidental sostén un filete / un negro deitado arrastra o bandullo./ Etiopía ten falme." O artigo non deixa de ser unha forma de confesión (atea ou crente) postmoderna que cae no tópico da autocompracencia moral: "mal de moitos, consolo de tontos". É unha maneira de diluír a responsabilidade dicindo: todos somos culpables. Ademais dentro de Occidente hai moito sufrimento. A canción dos resentidos é unha sátira a iso que ben sinala lavesedo. Esta sociedade bárbara tolera o sufrimento dentro dela.»
COM.- Leio de seguido a tua resposta e não lhe vejo muita traça. Pareces concluir que «Esta sociedade bárbara tolera o sufrimento dentro dela.» Pois contra essa barbaridade social dirige (entendo que dirige) Concha o seu artigo. Não o faz contra a sociedade... Não interpela os governantes (talvez suspeite que seria inútil: É que não estão informados... Bem que estão e o demonstram quando lhes interessa fazê-lo ver...). Dirige-se ao leitor de Vieiros e o convida a refletir, a que ele também faça alguma reflexão sobre essas notícias de mortes absurdas numa sociedade, numas sociedades absurdas. Neste momento poderíamos repassar os jornais de hoje e comprovar a absurdidade não das notícias, mas da maioria das ações ou omissões da gente, sobretudo da gente governante ou dirigente...
bertus#12:
Não entendeste nada bem a Concha. Dizes "É unha maneira de diluír a responsabilidade dicindo: todos somos culpables. Ademais dentro de Occidente hai moito sufrimento.(...) Esta sociedade bárbara tolera o sufrimento dentro dela."
A Concha não diz que todos e todas sejamos culpáveis. Não diz isso, não. Onde é que ela o diz? Isso DIZES TU que diz ela. Mas ela não o diz.
Por outra parte, não se pode diluir X mexendo Z. Falas de diluir a responsabilidade (cousa que a Concha não faz em nenhum momento) e aplicas a isto um "todos somos culpables" que não está no texto da Concha nem literal nem metaforicamente. X é responsabilidade e Z é culpa ("culpábeis"). Se ligas culpa a responsabilidade não entenderás nada. A Concha explica precisamente o contrário. Ela não procura culpáveis. De facto, critica essa procura de culpáveis quando descreve o pensamento de procura de culpáveis: "a culpa é da sociedade, ou dos ricos, ou dos políticos, ou mesmo só dos Iankis... com estes modernos métodos de confissão ateia não se descarga de culpa quem não quer".
Também não existe qualquer separação entre Ocidente e Oriente. Todos somos humanos e aquilo que nos une é igual em todos os povos do Planeta.
Só lamento que se distorçam as palavras da Concha de tal maneira que mesmo algumas pessoas (como bertus) acabem percebendo cousas totalmente opostas às que escreveu a Concha. Mas quem souber ler, que leia e re-leia o texto da Concha. Algumas pessoas parece que apenas sabem ler os seus próprios pensamentos. Outros preferimos não pensar, mas refletir, escutando simplesmente o que os outros e as outras nos dizem, ou o que a própria vida nos indica.
Parabéns ao AGIL polos interessantes comentários.
Saúde e reflexão.
P.S.: aconjuradosnescios #11 aponta uma interessante reflexão: "E há que recuperar também o sentido do comunitário". O comum pertence ao verdadeiro eu, mas o "eu" isolado e a importância em excesso ao indivíduo frente à comunidade acabam por construir um "eu" afastado da vida, porque a vida só é possível se é em contato com os outros seres, sejam estes humanos ou em geral com o resto de seres da natureza. A construção de um "eu" falso é feita desde a inconsciência e em âmbitos curiosamente de massas, onde o "comum" acaba sendo o "eu" individualista, curiosamente.
Obrigada polos vossos comentários a este artigo... a verdade é que é mesmo bom ler tudo o que tendes a dizer. Agradeço a franqueza de alguns, e também a, talvez imerecida, consideração de outros.
Bom, acho que, em maior ou menor medida, se entendeu o que eu queria dizer... não tratava eu de apontar com o dedo a ninguém, e menos ao leitor... não, eu apenas descrevi o que vi... talvez duma maneira demasiado simples, como aquele que diz o "o rei vai despido"
Obrigada a todos e todas
Aos críticos: entendo que o artigo é direto e forte. Não se anda com rodeios, vai direitinho ao objetivo, invisível mas certeiro como míssil de longa distância. Assim há que o entender. E para ajudar contextualizo com uns parágrafos de Alba Rico realizando umas poucas adaptações ao caso:
«El dolor de los otros es una incidencia meteorológica, nuestras ventajas pertenecen al ámbito de la geología. Las piedras ruedan pendiente abajo, los niños iraquíes [mude-se por AFRICANOS] estallan en pedazos [MORREM AFOGADOS], los coches, las pizzas y los juguetes convergen en nuestros mercados. Real, en sentido fuerte, es sólo lo que podemos cambiar o lo que cambia de pronto nuestras vidas y la ocupación de Iraq [A PRECARIEDADE DA ÁFRICA] no pertenece a ninguna de las dos categorías. Real es sólo lo que nos "escandaliza", lo que -en su original acepción etimológica- nos hace caer al suelo; y la paradoja de la llamada "sociedad del conocimiento" es que en ella ningún "saber" puede ya derribarnos ni derribar la barbarie que lo sostiene. El sistema, por así decirlo, ha sobrevivido al conocimiento, ha superado su completa superficialidad, su total visibilidad, de manera que lo real, desatado de la conciencia, abarca únicamente ahora, como en la mentalidad primitiva, lo más empírico y lo más pequeño: el fútbol, la caña, el coche, la amenaza de los inmigrantes. Cuanto más sabemos, más nos angustia sólo lo que tocamos. Cuanto más amplio y exacto es nuestro conocimiento, más encerrados estamos en el diminuto corral de nuestras sensaciones. ¿Sangre por petróleo? Esa vileza mortal, y la fuerza en que se apoya, es la ley de la gravedad; lo verdaderamente inmoral, lo que verdaderamente nos escandaliza, es que se siga fumando en los lugares públicos.»
Santiago Alba Rico, Abril 2006
Em: http://www.rebelion.org/notici...
AGIL, no primeiro comentario que me fas, falas de nós gozarmos de melhores circunstâncias do que a xente que morre nos caiucos. Concordo, ninguén pode negar iso; mentres nós debatimos por internet sobre a culpa dende o noso “seguro fogar europeu” algúns loitan pola vida ou directamente morren de fame polo mundo. O conto é que os máis dos que emigran non morrían de fame no seu país, hai profesionais, hai universitarios que foxen dunha realidade ruín comparada coa nosa na procura dun soño que miran pola tele, - un meu amigo senegalés tenme dito, “nós mirabamos na tele que até os cans vivían ben na Europa”-, e atopan despois un muro de arame ou a morte. Pero isto, na miña opinión, ten uns responsables. Os que manexan o noso sistema económico, que xa non lles abonda con expoliar medio mundo que agora tamén llo pasan polos fuciños para lles dicir despois “quieto amigo, se mira pero no se toca”. E isto vai tamén ligado ao que me dis no segundo comentario: Porque, queiramo-lo ou não, somos também responsáveis do que outros, autoridades ou responsáveis da sociedade a que pertencemos, resolvem ou não resolvem. Non estou de acordo. Sigo sen crer nesa culpa colectiva. Nacemos onde cadra, e como persoas deberiamos, que non sempre o facemos, tentar mellorar a sociedade en que vivimos. E eu estou certo de que todos os que aquí comentamos, concordamos na necesidade de mudar a orde establecida que nos tocou vivir, e tamén estou certo de que moitos dos que aquí comentamos xa o tentamos facer dun ou doutro xeito, -e non só reciclando latas de cervexa como se dixo por aí enriba-, polo que acho que non somos responsables de habitar nun lugar onde os que moven os fíos xa conseguiron que a maioría da xente proteste se lles poñen imaxes de nenos morrendo de fame á hora do xantar e despois saia a rúa para manifestarse, por exemplo, porque un xogador do seu equipo de fútbol está sancionado.
lavesedo #19:
Comentas estas palavras de AGIL: "Porque, queiramo-lo ou não, somos também responsáveis do que outros, autoridades ou responsáveis da sociedade a que pertencemos, resolvem ou não resolvem."
escrevendo "Non estou de acordo. Sigo sen crer nesa culpa colectiva."
Nas palavras de AGIL não se diz nada sobre a culpa, mas sobre a responsabilidade. AGIL não fala em nenhuma "culpa colectiva". Existe uma distinção enorme entre "culpa" e "responsabilidade", por incidirem cada uma delas em âmbitos diferentes da psicologia humana. Se a "culpa" é estéril, vazia e destrutiva, a responsabilidade é criativa, reveladora e produtiva (produtiva num sentido humano, é claro). A "culpa" inoculada na sociedade através da religião católica (e não só) de nada útil serviu nem serve. A responsabilidade é totalmente diferente: procura caminhos novos, atitudes e ações transformadoras, quer seja em âmbitos "pequenos" ou "grandes".
A Concha fazia um chamamento à reflexão e à responsabilidade, não a nos sentirmos culpados e culpadas pola morte de umas crianças e por uma problemática social que gerou esta morte. Não fazia nem a Concha, nem o AGIL, um chamamento à "culpa colectiva" de que falas. Se se lê bem o texto da Concha e os comentários do AGIL em nenhum lado encontrarás o estabelecimento de uma "culpa colectiva" que tu "lês", mas que não está no texto.
Se não se percebe a distinção entre culpa e responsabilidade (entre outras cousas), dificilmente se pode entender o texto da Concha.
Saúde e reflexão.
As ideas que expós en #19 parécenme moi acertadas, Xavier, comparto esa distinción entre culpa e responsabilidade. O que non comparto é a lectura que fas do texto, non atopo eu o chamamento á reflexión e á responsabilidade, precisamente aí está a cerna do meu primeiro comentario e por iso teimo no da "culpa colectiva".
Semella que temos diferentes interpretacións do que escribe Concha, e abofé que ningunha é moi errada cando ela propia dixo que se entendera em maior ou menor medida o que queria dizer, e por iso, permíteme que che diga, penso que non debías identificar ler ben o texto con lérmolo nos parámetros que ti marcas.
A min achegoume outras sensacións, poida que por mor de lérelo ti envolveito na Callas e eu, como o Bertus, no Reixa.
saúde
Concha Rousia nasceu em 1962 em Covas, uma pequena aldeia no sul da Galiza. É psicoterapeuta na comarca de Compostela. No 2004 ganhou o Prémio de Narrativa do Concelho de Marim. Tem publicado poemas e relatos em diversas revistas galegas como Agália ou A Folha da Fouce. Fez parte da equipa fundadora da revista cultural "A Regueifa". Colabora em diversos jornais galegos. O seu primeiro romance As sete fontes, foi publicado em formato e-book pola editora digital portuguesa ArcosOnline. Recentemente, em 2006, ganhou o Certame Literário Feminista do Condado.