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Já eram horas...

00:00 01/04/2007

Finalmente chegou a hora galega...! Sim, já eram horas...! Ou como podíamos bem dizer: os tempos são chegados. Os nossos tempos. Não, não são os tempos de sair da longa noite de pedra; não, não é para tanto... mas é algo. Hoje, ainda que a efeitos práticos vai levar umas semanas o ajuste, podemos falar de novo da nossa hora, logo de sofrer séculos de hora espanhola...

Hoje já se pode ler em algum titular de imprensa, mesmo digital, a nova da recuperação do nosso tempo, da nossa hora; e com ela um bocadinho da nossa dignidade, e da nossa memória histórica... que para bem nosso é muito anterior à Porta do Sol. A notícia pode-se ler em algum titular da nossa imprensa... e eu não aguardaria a amanhã para ver a fúria nos meios espanhóis... Mas eu não tenho interesse nestes últimos, e não vou falar disso; só aproveito a conjuntura para parabenizar ao Governo Galego pola labor levada a cabo na gestão deste assunto, tanto nas instituições europeias como nas estatais. Mas eu não vou falar nisso, isso deixo para técnicos entendidos na matéria.
 
A mim hoje o que me interessa, e me vêm à cabeça, são outros tempos e outras pessoas que tiveram que sofrer, e que aprenderam a se rebelar em silêncio contra essa hora absurda marcada polos relógios do Leste peninsular e imposta sobre nós, habitantes do Nordeste. Em Penacova, minha aldeia, a hora marcava-a o homem de pedra da parede da Igreja; uma das poucas relíquias que ficam doutros tempos, que por ser de pedra talhada por nossos antepassados é valorado pola gente, e nunca a cura nenhum lhe foi permitido roubá-lo como sim se lhe permitiu roubar santos, altares, mantéis... tudo isto pertence aos valores religiosos da igreja; mas o homem de pedra pertence aos valores verdadeiros da comunidade, e é (ainda hoje) intocável... Vários padres foram ameaçados polo pedáneo, que falava em nome de todos os vizinhos, por falar em baixar o homem de pedra de lá do alto da parede, lá do seu sitio, lá do seu destino...
 
O homem de pedra marcava o tempo, sempre marcava, e marca o nosso tempo, não como os das agulhas... Mas a gente afinal teve que se afazer a ver uma hora no sol e outra no relógio... menos o tio Servando da Fonteuzeira, que nunca permitiu que o seu relógio marcasse uma hora que não era a certa, como dizia ele... O que daria eu polo ver lá no Além a se regodear porque finalmente a gente entrara em razão e a nossa hora nos vai ser devolta... porque para os galegos e galegas por muito tempo que passasse desde que andamos mal, não sempre foi assim... Não, nós mal e coa hora do revés, a hora que não é, só levamos desde que perdemos nossa independência. Mas hoje, com este passo à frente, coa recuperação do que é nosso, tudo parece mais justo... e já os da TVG poderão no futuro dizer aquilo de... 7:30, hora galega, sem que ninguém lhes retruque... “essa não é a hora galega...”
 
Aproveito a ocasião, e este espaço que agradeço ter, para dar meus parabéns ao governo e a todos e todas que fizeram possível a recuperação da nossa hora, a que injustamente nos era negada, e nos era suplantada pola hora espanhola. E aproveito para animá-los a que, do mesmo jeito que descolonizaram a nossa hora, descolonizem também nossa ortografia... Tudo que foi nosso, e se nos impediu seu uso, têm por força que nos ser devolto. Se calhar antes do final da primavera nos dão alguma outra surpresa agradável... Afinal, hoje ainda só é o primeiro de Abril...

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Comentarios (7)

Fer #1 1/Abril/2007 Fer
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Como dizia o meu avô... Limpa-te que estás de ovo!
Já sei que é um de abril, mais o teu artigo (de bom coraçom seguro) chama impossibilidade deste este pais sair da cola da Espanha. Eu já nom conto com que a nossa cultura acade um mínimo de respeito, da toleráncia paternal dumha Espanha que já sabe que mal nom podemos fazer prestes a morrer como povo, a consigna é a da terra queimada e o sal até nos cemiterios.
Alomenos sabemos que a nossa cultura fecundou em outras terras, e que quando aquí viver na nossa língua com orgulho sejá impossível teremos o caminho do galego como última opçom...

OBSERVADOR #2 1/Abril/2007 OBSERVADOR
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Cara Concha, muito bem. É assim mesmo: Já temos hora galega graças aos esforços do nosso governo. E não há mais que falar. ;-)

suso #3 2/Abril/2007 suso
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Num relato de Garcia Marquez, não lembro agora qual, o ditador da república bananeira onde se passa a acção vende o mar aos gringos. Assim de crua é a alegoria. Os dirigentes do estado bananeiro onde moramos não podem roubar as Rias Baixas ou a Costa da Morte e levá-las a Madrid, mas sim podem roubar o tempo. A mim roubaram-me uma hora, a que marca a diferência entre sair pola manhá a trabalhar com a luz do abrente ou sair de noite, como um morcego/escravo

Dias #4 2/Abril/2007 Dias
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Que torne o home de pedra, enquanto é tempo...

Xarope #5 4/Abril/2007 Xarope
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Os piores de tudo isto (hora, língua, dignidade, ..) som os sipaios de dentro que lhes fam o trabalho sujo aos de fora ...

OBSERVADOR #6 5/Abril/2007 OBSERVADOR
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Mas que imos esperar de alguns, Concha? Nem conselheiros nem gestores de Vieiros. Uns no Parlamento e outros nos Foros, têm tudo cheio de lixo e não limpam nem que lhes cair a merda toda por cima. Assim lhes vai agora. É o que temos, os galegos.

Celso #7 6/Abril/2007 Celso
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Cara Concha, aqui, nos longes, onde passo uns dias, onde a gente tem outra hora de sol, mas a mesma do relógio, desfruto a ler o teu texto, como outras vezes. Agora compreendo que o objecto estranho, deforme como são todas as geometrias naturais, que esta manhã encontrei na praia do Mare Nostrum era o esquelete de uma hora, a hora que o teu texto por fim expulsou da terra ocidental. Não sou capaz de descrever o que vi, mas sei que o seu corpo original tinha membros e mãozinhas e dentes com os que sugava árvores à noite, como aquele antigo relógio de Cortázar no pulso dos incautos. Em Penacova, nos pinhos mansos do Coruxo onde eu morei, até nos jardins urbanos que cheiram a voto comprado e oleoduto, havia sempre à noite uma hora ubíqua, vinda doutras terras, a sugar a saiva e deixar o nosso próprio tempo esquálido, carente, condenado a esmolar sempre nos portais dos poderosos. Por isso, sim, já era sem tempo: obrigado por expulsar essa presença intrusa com palavras.

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Concha Rousia

Concha Rousia

Concha Rousia nasceu em 1962 em Covas, uma pequena aldeia no sul da Galiza. É psicoterapeuta na comarca de Compostela. No 2004 ganhou o Prémio de Narrativa do Concelho de Marim. Tem publicado poemas e relatos em diversas revistas galegas como Agália ou A Folha da Fouce. Fez parte da equipa fundadora da revista cultural "A Regueifa". Colabora em diversos jornais galegos. O seu primeiro romance As sete fontes, foi publicado em formato e-book pola editora digital portuguesa ArcosOnline. Recentemente, em 2006, ganhou o Certame Literário Feminista do Condado.





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